ENCICLOPÉDIA DE AUTORES

Manuel Dias Sénior

(1559-1639)

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N. 1560; A. 1575; O.S. 1586 ou 1587; U.V. 1595; M. 1639

Nascido em 1560 na vila alentejana de Alpalhão (Nisa/Portalegre), Manuel Dias foi cognominado Sénior ou "o Velho" para se distinguir de um outro jesuíta da missão da China, seu homónimo, ligeiramente mais novo. Admitido no noviciado da Companhia de Jesus em Évora, em finais do ano de 1575, foi aí que concluiu os seus estudos de Filosofia e realizou parte dos de Teologia. Uma década mais tarde, embarcou para a Índia, tendo alcançado Goa em 1586. Nesse mesmo ano ou no seguinte, recebeu a ordenação sacerdotal. Permaneceu na Índia durante sete anos, tendo sido reitor das residências de Taná e Bandorá e da de Chaúl. Designado para o Japão, partiu para Macau em 1593. A estadia foi, no entanto, breve, pois no ano seguinte já estava de regresso à Índia, como companheiro de Alessandro Valignano (1539-1606), o visitador das Índias Orientais. Foi nesse período, que a 9 de Junho de 1595, em Goa, fez a profissão dos quatro votos (ARSI, Lus. 2, fl. 100).

 


 

Relato do naufrágio da nau Santiago, a bordo da qual Manuel Dias iniciou a viagem para Goa, em 1585 (publicado por Bernardo Gomes de Brito, ed., História Trágico-Marítima, tomo II, Lisboa: Officina da Congregação do Oratório, 1736)

 

 

Novamente em Macau, ocupou, entre 1597 e 1601, o cargo de reitor do colégio da Madre de Deus. Seguiu-se a entrada na missão da China, altura em que adoptou o nome Li Manuo 李瑪諾/李玛诺. Após passagem por Pequim em meados de 1602, foi, entre 1603 e 1609, reitor das residências jesuítas do Sul (Shaozhou, Nanchang e Nanquim), na dependência directa do superior da missão, Matteo Ricci (1552-1610). Voltou depois a Macau, onde se manteve por mais de dez anos. Nesse período, desempenhou, pela segunda vez, entre 1611 e 1615, o cargo de reitor do colégio jesuíta, do qual foi demitido pelo vice-provincial Valentim Carvalho (1559-1630/31), com quem manteve um relacionamento conflituoso.

Mais tarde, em Janeiro de 1619, era apontado o seu envolvimento no debate em torno do ateísmo dos chineses, sendo incluído no grupo que se opunha a Ricci (ARSI, Jap.Sin.18 II, fl. 25). Nomeado para visitar a missão da China, em 1622, deu início a uma viagem de inspecção, concluída em 1624. Parece ter continuado na China continental até 1629, quando, já muito afectado pela surdez, o visitador André Palmeiro (1569-1635) decidiu que se recolhesse a Macau. Em 1635, por ocasião da morte deste visitador, Dias foi designado para lhe suceder, no meio de grande contestação por parte dos missionários do Japão, que o acusavam de defender os interesses da vice-província da China. Segundo António Francisco Cardim, um dos seus opositores, apenas se podia prever o mais negro dos cenários por parte de um superior que tinha o “coração todo na China” (ARSI, Jap.Sin. 161, fl. 159v) e sentia grande "desafeição" pelo Japão (ARSI, FG 721/II/6). Logo no ano seguinte, e contribuindo para o agravamento da tensão, Dias enviou um procurador à Europa, Álvaro Semedo (1585-1658), um jesuíta da China, a quem incumbiu de recrutar missionários e captar verbas, resolver as contendas com os mendicantes na China e promover a reestruturação das missões da Ásia Oriental, com a ascensão da China a Província, em detrimento do Japão.

Em reacção, a facção japonesa em Macau elegeu, em 1638, Cardim como procurador da Província do Japão à Europa, para que impedisse a execução dos planos de Dias. Na sequência disso, em meados de Outubro de 1639, Dias foi destituído a pretexto de estar “doente e velho já caduco” e, como tal, incapacitado para o governo (BAJA 49-IV-66, fl. 57), no decurso de um golpe perpetrado por homens como o provincial Gaspar Luís (1586-?), Alexandre de Rhodes ou Giovanni Antonio Rubino (1578-1643). Paralelamente, estes últimos invadiram o seu cubículo no colégio e violaram a sua correspondência e demais papéis, numa sucessão de acontecimentos que terão certamente precipitado a morte do visitador, ocorrida logo em finais de Novembro. Dias, um homem frequentemente envolto em conflitos, encontrava-se então à beira dos 80 anos, metade dos quais passados em Macau (c. 25 anos) e na China continental (16 anos).

Ao longo deste extenso período, a sua produção textual foi significativa. Com efeito, sobreviveram cerca de meia centena de cartas e outros documentos, exclusivamente em línguas europeias, onde podemos encontrar informação variada sobre a China (incluindo Macau), o Japão e o Vietname e respectivas missões. Como reflexo dos cargos de poder que ocupou, as questões de governo, aspectos estratégicos e temas controversos (nomeadamente no âmbito da Questão dos Ritos) marcam forte presença na sua documentação.

 

 

 

“Apontamentos do Collegio de Machao e residencias da China do ano 97”

Macau, 12/11/1597, ARSI, Jap.Sin. 13 I

 

 

 

 

“Ratio Studiorum”

(Biblioteca da Ajuda, Jesuítas na Ásia 49-V-7, fls. 310v-315)

 

 

De entre o seu corpus documental, afigura-se particularmente interessante, pelo carácter pioneiro, a "Ratio studiorum para os nossos que ham-de estudar as letras e lingua da China", documento contemplado pelo projecto Res Sinicae. Datada de 1624, a Ratio constitui o primeiro plano de estudos de chinês composto por um europeu, decorridos quarenta anos após o início da aprendizagem sistemática da língua pelos jesuítas. Destinada aos missionários europeus e aos estudantes de Macau, dela apenas sobreviveu uma cópia manuscrita do século XVIII, preservada na Biblioteca da Ajuda.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BROCKEY, L. M. (2007), pp. 255-268; COSTA, J.P. Oliveira e PINTO, A. Fernandes (1999); PFISTER, L. (1976), p. 74; PINA, I. Murta (2008), pp. 79-94; SEBES, J. (2001), pp. 1112-1113; TEIXEIRA (1972), p. 149.

 

A entrada deve ser citada da seguinte forma: Isabel Murta Pina, "Manuel Dias Sénior (1559-1639)", in Res Sinicae, Enciclopédia de Autores, Arnaldo do Espírito Santo, Cristina Costa Gomes e Isabel Murta Pina (Coord.). ISBN: 978-972-9376-56-6. URL: "https://www.ressinicae.letras.ulisboa.pt/manuel-dias-senior-1559-1639". Última revisão: 15.01.2021.

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