ENCICLOPÉDIA DE AUTORES

 

FRANCISCO DE CORDES

(1689-1768)

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N. 1689; A. 1704; O.S. ?; U.V.?; M. 1768

Francisco de Cordes nasceu em Lisboa, na freguesia da Encarnação, em 1689. Era filho do fidalgo da Casa Real António Luís de Cordes e de Joana Maria, tendo-lhe sido confirmada a fidalguia, por alvará régio, em 1701.

Ingressou na Companhia de Jesus em Lisboa a 21 de Setembro de 1704, onde fez o percurso usual dentro dessa instituição religiosa, nas áreas da Filosofia e da Teologia, e onde professou a 22 de Fevereiro de 1722 (ARSI, Lus. 47, fl. 86). Ignora-se a data em que foi ordenado presbítero», ou «Ignora-se a data da sua ordenação sacerdotal.

Em 1716, segundo a correspondência que lhe é dirigida, já se encontrava em Macau, e, entre esse ano e 1721, é referenciado entre essa cidade e Cantão. Entre 1725 e 1728, sabe-se que se cruzou com Alexandre Metelo de Sousa e Meneses (1687–1766), embaixador de D. João V (1689–1750), aquando da realização da conhecida embaixada ao Imperador Yongzheng (1723–1735).

Entre 1730 e 1732, foi superior da residência de Cantão, sendo responsável pela transacção de porcelanas, têxteis, papéis pintados, mas também de livros (BAJA, 49-VI-5, fls. 2, 2v, 7). Destes bens destacam-se, pelo ineditismo, as encomendas de papéis dourados, com motivos florais e vegetalistas, bem como, pela frequente alusão, as aquisições de livros sínicos de Geografia, Matemática, Filosofia e Teologia.

Em 1732 é referido como um dos quarenta jesuítas expulsos de Cantão pelo Imperador Yongzheng, tendo, aparentemente nesse mesmo ano regressado a Macau.

As missivas que lhe são dirigidas, entre 1732 e 1734, provam que deve ter regressado a essa residência, continuando a ser, nessa cidade, responsável pela angariação de diversos bens aí produzidos, bem como pela expedição de mercadorias europeias para outros pontos da China, onde se encontravam missionários jesuítas (BAJA, 49-VI-5, fls. 2-23v). Destacam-se, por um lado, os bens associados ao consumo do chá, mas, por outro lado, as obras de autores clássicos, como Ovídio (43 a.C.–c.18), Suetónio (69–141) e Virgílio (70 a.C.–19 a.C.), entre outros (BAJA, 49-VI-5, fl. 23).

Pese embora a circunstância de estar fixado em Cantão, em 1735, Cordes torna-se fiel depositário dos bens deixados por D. João de Casal (1690–1735), bispo de Macau, nomeadamente pratas, jóias, marfins e outros bens de função litúrgica (BAJA, 49-V-29, fl. 65). Ainda em 1735 é eleito, na Congregação da Província do Japão, como procurador a Roma. Terá então partido de Macau, na monção de Janeiro de 1736, numa nau francesa, já que não obteve autorização das autoridades chinesas para embarcar directamente em Cantão, cidade da qual tinha sido aparentemente expulso em 1732.

Pondo em causa a realização efectiva desta jornada, enquanto procurador à Europa, encontra-se a notícia da presença de Cordes em Tonquim, logo no ano seguinte. Aí teria assistido à degolação dos padres Bartolomeu Álvares, Manuel de Abreu, Vicente da Cunha e Jean-Gaspard Cratz.

Entre 1744 e 1745, então com cerca de 55 anos, Cordes já se encontrava em Lisboa, no colégio de Santo Antão-o-Novo, na qualidade de Procurador-Geral do Japão. A correspondência trocada com outros colegas, reflecte claramente que se continuava a preocupar com as situações ocorridas em Macau e na China (BAJA, 49-V-29, fls. 113-113v). Contudo, numa certidão de renda da Casa das Rainhas, de 1756, surge indicado como Procurador da Vice-Província do Malabar (ANTT, Casa das Rainhas, NT. 635, Cx. 484).

Em 1759, quando morava no Hospício de São Francisco de Borja, em Lisboa, juntamente com os padres procuradores-gerais – António de Sequeira, da Província Lusitana; Marcelo Leitão, da Vice-Província da China; João Antunes, da Província Goana; Domingos de Sousa, designado da Província do Brasil; Bento da Fonseca, da Vice-Província do Maranhão – surge novamente na qualidade de Procurador-Geral do Japão. Nesse mesmo ano, quando se dá a supressão desse instituto religioso, é, juntamente com esses companheiros, encarcerado na fortaleza de São Julião da Barra. Considerando o arrolamento de bens efectuado a essa residência, bem como o da quinta da Alagoa de Carcavelos, onde também possuía um cubículo, verifica-se que à data tinha na sua posse várias caixas de charão preto e dourado, louça azul, branca e dourada e caixas de tartaruga, o que elucida acerca do papel de intermediário que desempenhou ao longo da sua vida (AHTC, JI, Mç. 21, N.º 83).

Após alguns anos de cárcere é deportado para Rufinella (Itália) (ARSI, Lus. 40 b, fl. 3), onde veio a falecer em 1768.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ARENAS, M. G. (2015), pp. 121-145; CAEIRO, J. (1995), p. 61; COUTINHO, M. J. Pereira (2019), pp. 103-122; CURVELO, A. (1998), pp. 433-435; DEHERGNE, J. (1973), p. 60; FERREIRA, M. J. Pacheco (2007), p. 263; MARTINS, F. Sanches (1994), pp. 481-482; PFISTER, L. (1932), p. 651; RUSSO, M., TRIGUEIROS, A. J. L. (2013), p. 237; VALE, A. M. Martins do (2002), p. 558; WICKI, J. (1967), Entrada N.º 1598.

 

A entrada deve ser citada da seguinte forma: Maria João Pereira Coutinho, "Francisco de Cordes (1689-1768)", in Res Sinicae, Enciclopédia de Autores, Arnaldo do Espírito Santo, Cristina Costa Gomes e Isabel Murta Pina (Coord.). ISBN: 978-972-9376-56-6. URL: "https://www.ressinicae.letras.ulisboa.pt/francisco-de-cordes-1689-1768". Última revisão: 15.01.2021.